quinta-feira, 20 de agosto de 2009

escolha feita


Forço a vista, busco enxergar o que virá. A velhice do futuro confunde-se à velhice de meus pais. E tudo são escolhas, para tudo há conseqüências. Ficar e ver a morte ou sair e ser informado?


Vou-me longe, muito distante. Mas quero saber tudo, não deixem-me ignorante. O fardo vai comigo, sempre. Não importa o caminho que trilhe, mesmo que fique, o peso lá estará.


Sou filho e isto não muda nunca. Não há distância que desfaça meu sangue, oceano que separe minha aparência. Sou familiar a poucos. Sorrio muito pouco, e quando o faço, é a eles apenas. Sangue do meu sangue ou companheira escolhida. Apenas eles me conhecem.


O oceano que se dane. Eles estão comigo em qualquer lugar. Apenas deixem-me informado, por favor.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

um ponto qualquer


de algum ponto de uma vida qualquer
sossego palavras alinhadas
alinhavo pensamentos
descosturo a existência

em um dia
o trailer do que resta
editado pelas fantasias
o suspense por conta das mágoas idas
a troca de cenas comandada pelos semáforos

o que não se registra
esvanece depois da noite de sono

a cada dia outro script
tecido pelo dia qualquer
da minha ou de outro vida

outro, não outra
pois hoje não repito quem fui

aquele de ontem
lá ficou.
no ponto dele qualquer,
munido hoje de vida alguma.

domingo, 2 de agosto de 2009

Segue


enquanto desperdiço alguns minutos esperando um sinal
o tempo segura-se às cinzas
e uma vida inteira é pouco para o tanto de dias que necessito

temo o futuro
temo a mudança no mirar
o olhar furtivo para o relógio
temo tanto, temo tudo, tenho tudo
aos pés

uma linha eterna até onde deixo de enxergar
até a morte, até o fim.
esse eu temo menos

meu medo está em ti diversa
em ti velha
em nós depois
por favor, não olhe no relógio quando eu levantar-me da mesa
mas não faça isso por pedido meu

mesmo depois
quero que envelheças ao redor do teu olhar
prometo deixar o relógio em um canto qualquer
e achar que vale à pena não ser títere
pois há tanto por vir, começo agora.



quarta-feira, 15 de julho de 2009

desenhando


regurgitei sorrisos
esgravatei as fotos
esparramei lembranças nas mesas sem pés das calçadas

agora que eu e a cidade somos um só
reivindico esquinas, placas e semáforos

na falsa esperança de regular
o trânsito instransitável de minhas memórias

sou cidade de tantos
urbano concreto de muitos

sem mapa
descartografado fui pelo tempo
e pelos viajantes das minhas ruas


segunda-feira, 29 de junho de 2009

desço pela descendência


descendo indecentemente dos macacos
descendo infinitamente até o asco,
faço a lida humana

descendo de outros homens
descendo rebaixo-me aos homens

descender...
descer...

nessa minha porção macaco
esqueceram a graça
caiu ao descer da árvore

como hominídeo eu era melhor

porque não descender dos pássaros
para não descer nunca mais?